6.19.2011

Hard Fellings #3

 









Chegámos à casa do Rodrigo por volta da uma da manhã. A casa dele era enorme, mas já não surpreendia ninguém. Passámos pela casa principal (onde ele e os pais moravam), por um trampolim gigante, duas piscinas e também pela colecção de motas dele. Continuámos a seguir o trilho que nos levaria para a casa secundária, onde realmente estava a festa. Pela nossa estimativa, deviam estar em todo o terreno, umas 500 a 600 pessoas. O Rodrigo não era de se acanhar.
Haviam colunas cá fora, para quem quisesse curtir o som sem estar lá dentro. Entrámos e ficámos boquiabertas com a nova decoração. As paredes estavam florescentes,  os sofás enormes e em tons de preto e branco. Os lasers eram mais do que o normal, tal como todos gostávamos. Agarrei na mão da Kat e puxei-a para o meio da pista. Logo iríamos cumprimentar o resto do pessoal. Neste momento não precisávamos de nada nem de mais ninguém. Era por isto que eu tanto gostava da Kat, estávamos quase sempre em sintonia. Ainda mal a música tinha começado a bombar, o espaço começou a encher cada vez mais.
Corpos sedentos de barulho, de loucura, de drogas e de viver o momento. A música subia cada vez mais, e nós não conseguíamos parar. Subimos para o pé do Dj e ele sorriu para nós. Dançámos ali, e chegámos a ver algumas pessoas a assobiarem.  Dançámos até cairmos para o lado, literalmente. Não nos interessou o facto de estarmos quase mortas, ou de as nossas pernas fraquejarem.
Kat: Danie, estou seca. Vamos beber alguma coisa?
Eu: Sim, mas vamos ao bar lá de fora.

Dirigimo-nos à saida e pedimos duas vodka-redbull.
Conversa da treta, falámos de compras, sapatos e preços. Até que vejo o Rodrigo, o João, o Miguel e o Rui a virem na nossa direcção. O meu primeiro pensamento? Yessss, o Francisco não veio.
Devia ter mais que fazer como alimentar uma vaca ou cabra qualquer em casa.
Rodrigo: As minhas meninas afinal vieram. Eu sabia que não me iam desiludir.
Eu: Achas mesmo? Só cá viemos pela bebida à borla e pela festa, achas que queremos saber de ti?
Rodrigo: Oh Danie, eu sei que me adoram, não mintas. Então Kat, como é que vai a vida?
Kat:
Sempre em altas, sabes como é que é.
Rodrigo: Claro claro, então é assim pessoal. Como bom anfitrião que eu sou, hoje não vou apanhar nenhuma bebedeira...
Pausa. Todos sabíamos que vinha aí um "mas..."
Rui: Vá Rodrigo, nós sabemos que vem aí alguma.
Rodrigo: Mas quero uma trip com vocês. Todos.
A Kat olhou para mim com cara de 'se tu alinhas, eu alinho'
Eu: Não, hoje fico pelo álcool Rodrigo. Fica para a próxima.
Kat: Oh Daniela, não sejas assim. Tu hoje estavas cheia de pica para estas coisas e agora não queres?
Eu: Desculpem pessoal, mas não. Experimento noutro dia. Vou voltar lá para baixo.
Rui: Oh Daniela, nem sabes o que vais perder.
Eu: Noutra noite.
Virei-me para a Kat, e na tentativa de disfarçar, beijei-a na face, sussurrando-lhe ao ouvido.
Eu: Boa viagem, amanhã quero-te viva porque quero saber o que é que se passa entre ti e o João.

E sem dizer mais nada, fui-me embora dali. Eu queria algo novo, mas ainda não queria subir o nível.
Acabei a bebida e voltei lá para dentro. Ainda me perguntava onde andava o Tiago. Tinha decidido fazer as pazes com ele. Não podia estragar a minha amizade com ele só porque o Francisco se meteu no meio.
"Esquece isso Daniela, esquece tudo. Vai curtir a noite porque hoje não tens ninguém a chatear-te"
Dancei o mais que pude. Voltei a beber, dancei e voltei a beber. A noite já ia alta, tal como a taxa de álcool no meu sangue.
Vejo o Francisco. Uma rapariga. Beijos calorosos. Não podia ver aquilo muito mais tempo, estava a ficar mal-disposta, sentia-me sufocar, aquele espaço começava a ser pequeno demais, precisava de ar fresco.
Volto lá para fora e deito-me na relva. Fogo, que bom.
A noite tinha muitas estrelas e uma grande lua. Eu sorri. Tinha esquecido tudo, não existia nenhum rapaz que me fosse deitar abaixo. Foi apenas indisposição graças à quantidade de bebida.
Bem, eram mesmo estes dias que eu me iria lembrar quando fosse mais velha, e não os podia relembrar com tristeza, remorsos ou arrependimentos.
De repente um rapaz, mais ou menos da minha idade deita-se ao meu lado.
Eu mantenho-me em silêncio. Tentava olhá-lo pelo canto do olho, mas era extremamente difícil.
Reparei que tinha cabelo castanho e uma estrutura óssea muito bem definida.
Continuei a observar o céu e desta vez tentei concentrar-me numa só estrela. O céu parecia mexer-se, rodava em torno da estrela e devia estar a gozar com a minha sanidade mental. Oh, era apenas mais um efeito do álcool.
Ele: São lindas não são? ... São milhares e milhares delas.
Eu: São tantas, e tão lindas.
Ele: Podes crer.
Mantivémo-nos em silêncio. E ele foi-se embora, e voltei a ficar sozinha no mundo.

(continua...)

6.15.2011

Hard Fellings #2


Passados uns dias...  (Francisco)

O Rui e o Miguel jogavam Call of Duty. O meu Ipod tocava em aleatório, a minha mão apenas levava o cigarro à boca. Eu não queria a Liliana para nada. A Daniela...  eu queria de volta aquele cabelo ruivo. Sentia falta daquelas curvas, e das nossas conversas nosense até as 5 da manhã. Passarmos horas deitados na cama só a ouvir Pink Floyd, Joy Division, The Smiths e The Clash.
Levantei-me e fui até à janela. Eu ia tê-la de volta, tinha de consegui-lo.
Rui: Hoje vamos todos à festa do Rodrigo.
Francisco: É hoje? Fogo, já me tinha esquecido.
Rui: Sim, e ouvi dizer que vai haver muita coisa interessante.
Miguel: Muitoo bem, só falta telefonar ao João e ao Tiago. 
Francisco: Alright.
Rui: Francisco, ou tu consegues a Daniela de volta, ou nós arranjamos-te uma bela loira toda fina, que dizes?
Francisco: Odeio loiras...
Miguel: Não faz mal, arranjamos-te uma morena. Vais ver que não há lugar para tristezas naquele sítio.
Rui: Ui. Tu no ano passado faltas-te. Fodasse, foi a festa do ano. É verdade, tens de convidar a tua irmã, ela vai amar aquilo.
Francisco: Logo vejo isso. Vou a casa tomar banho e jantar. Mais logo telefona-me Miguel.
Miguel: Na boa, depois digo-te onde é.

(Daniela)



Tiago: Daniela, mas que merda é que andas a fazer?
Desviei a cabeça do livro e olhei para ele.
Daniela: Ler um livro.
Tiago: Sabes muito bem ao que me refiro.
Ele parecia fulo comigo, mas não estava com disposição para aturar as merdas dele.
Daniela: Não é nada da tua conta.
Tiago: Passa a ser da minha conta porque eu já não te conheço.
Daniela: What? Oh Tiago, tu conheces-me, eu estou normal contigo e com toda a gente.
Tiago:  Normal? É a isso que lhe chamas?
Daniela: Só porque em vez de ter namorado, ando a aproveitar a vida?
Tiago: Chamas-lhe "aproveitar a vida"?  Já fizeste muita coisa, e muita dela foi porcaria e eu também. Mas nisto?
Daniela: Não gozes comigo Tiago. Qual é o mal de eu "mastigar" e "deitar fora"? Aliás, não eras tu que fazias isto antes de estares com a Erica?
Tiago: Não vires o feitiço contra o feiticeiro. Apenas pára de agir assim por favor.
Daniela: Já percebi. Foi o Francisco que te pediu para vires falar comigo não foi?
O Tiago desviou o olhar e eu reconheci que era verdade.
Daniela: Ai aquele cabrão vai ouvi-las.
Tiago:  Tecnicamente, ele não me disse nada.
Não quis ouvir mais. Saí da casa dele e bati com a porta. Era só o que me faltava, o meu melhor amigo, a virar-se contra mim.
Começou a chover e eu não apressei o passo. Queria sentir a chuva, gota a gota.
Quando cheguei a casa tomei banho, vesti-me e liguei a aparelhagem. Ao som de Pink Floyd fumei um cigarro, e o meu cérebro finalmente ficou On.Precisava de superar os limites. Tinha de tentar alguma coisa diferente. Precisava de me sentir viva. Não queria voltar para o Francisco e vou fazer de tudo para não voltar para o buraco onde estava.
O meu telemóvel vibrou. Uma sms da Kat:
"Consegui arranjar convites para a festa do Rodrigo, é esta noite. Vens?"
Sorrio e respondo-lhe que sim.
Perfeito.

(...)

6.05.2011

Hard Fellings







Francisco: Pára com essas parvoíces. Porque é que me começaste a ignorar, a ser fria e a tratar tão mal os outros?
Daniela: Não páro. Tu começas-te.
Francisco: Eu não quero saber disso! Tens parar, eu preciso que páres. Larga aquele sacana, que a única coisa que quer de ti é sexo. Fogo, és tão estupida às vezes.
Daniela: É a minha vez de ser estupida. Já agora, porque é que não voltas para a outra, aquela estrangeira? Loira, magra, com melhor estilo e atitude do que eu? Eu já não te quero.
Francisco: Mas eu não a amo! Amo-te a ti! E tá-me a matar por dentro ver-te a destruires-te.
Daniela: Não quero saber o que é que te mata. Desaparece.


Ele sentou-se e suspirou. Ela não sentia nada, mas a verdade é que não o queria ali. Não queria vê-lo, nem ouvi-lo.


Francisco: Não te compreendo.
Daniela: Ainda bem. Vai-te emb...
Francisco: Eu precisei de ti ! CÉUS, mas onde estavas? Abandonaste-me, deixaste-me à toa, e isso deixa-te contente? Fiquei farto de pedir desculpa. Enviei-te tantas cartas, telefonei-te tantas vezes, implorei até demais.
Daniela: ...
Francisco: Eu nunca quis nada com ela, mas eu precisava de alguém. Eu preciso de alguém. Tu não querias saber, e ela simplesmente estava ao meu lado, sempre esteve!
Daniela: Então tenta amá-la a ela. Da minha parte não vais conseguir nada disso, sabes que eu não consigo ser a pessoa carinhosa, querida e prestável que tu precisas. Esquece que alguma vez aconteceu alguma coisa entre nós, ao menos faz isso por ti.

Ele queria dizer mais, queria gritar, queria agarrar nela e acordá-la para a vida.  Mas nada fez. Simplesmente saiu, ignorando (ou não) as últimas palavras dela.

Ela sentiu a sua última oportunidade de ser feliz, a ser desperdiçada. Uma lágrima derramou e sussurou um "fodasse". Limpou a lágrima e telefonou ao Marco. O Francisco tinha razão acerca dele, realmente era um sacana a aproveitar-se dela. Mas ela não queria saber, apenas precisava de ficar viva.

(...)